“...talvez seja essa a coisa mais difícil: saber quem a gente é. Na verdade não tenho mais nenhum interesse em saber quem eu sou. A vida vem me fazendo viver de muitos jeitos, como se já tivesse sido várias pessoas. Eu me sinto múltiplo. Quando se vive muito tempo e muito intensamente, acabamos por descobrir em nós, potenciais de vida ainda não usados por medo ou ignorância de nós mesmos. E não é a mesma coisa de usar máscaras ou viver personagens teatralmente, como defesa ou astúcia. Quando superamos o medo de ser o que a gente realmente é, vai se surpreendendo com o que ainda dispúnhamos para ser. Talvez o melhor de nós mesmos é o que nos fazem mais reprimir. Mas a gente vai se revelando aos pedaços, e se modificando de tal forma a nos fazer pensar, quando chega a velhice, que fomos muitos homens diferentes durante a vida...!
Há muito tempo atrás... na época em que se amarrava cachorros com lingüiça e se colhia ouro em árvore, existiu um Mago e seu Pupilo. Era um Mago comum, que dividia o seu tempo entre recolher ervas para suas poções e escrever em seu Livro seu aprendizado. Era um rico conhecedor das ciências da natureza e, de seus cabelos, caíam longos emaranhados de plantas e restos de pequenos animais.
Numa manhã de outubro, enquanto seus olhos estudavam atentamente minúsculas culturas de bactérias, existentes em cascos de frondosas árvores, ouviu seu pupilo exclamar curioso notando que um desses aglomerados de seres, quase invisíveis a olhos nus, exibiam uma certa cor azulada, que os diferenciava das outras culturas.
Então os recolheu e, percebendo que uma forte chuva se aprontava pra lavar o chão de pedras, os guardou em seu bolso, misturando-os com outras culturas comuns. E foram-se embora.
Na longa jornada de retorno à sua caverna, as culturas se misturaram em seu bolso, e, chegando cansado, as colocou dentro de um casco de coco, devidamente preparado para isso por seu aprendiz. E adormeceram exaustos.
Ao amanhecer, após recolherem a água da chuva para o desjejum com raízes que brotavam no céu da caverna, o Mago parou curioso em frente ao casco que continha a mistura de bactérias. Tinha certeza de que a pressa para retornar antes da chuva desabar, havia misturado as culturas colhidas e tal foi a surpresa quando, ao chegar bem de perto, pôde perceber que as bactérias azuis haviam se reunido no centro do casco, como que por mágica, cercadas das outras bactérias.
E o Mago pôs-se a escrever em seu antigo livro sobre uma estranha cultura de bactérias, que tinham o poder de se reconhecer em meio a tantas outras que não continham nenhuma característica aparentemente diferenciada. E que mesmo que o tempo passasse, ou chuvas caíssem, ou ainda o vento passasse por elas, elas voltavam a se reunir, se reconhecendo.
Séculos se passaram, e ele, ao chegar a velhice e já sem forças, continuava sem entender o mistério da cultura de bactérias azuis, e como elas se reconheciam em meio a tantas outras.
Numa tarde de lua apressada, ele , percebendo a morte se aproximando, e já sem poder falar, sentia sede, mas não conseguia que as palavras dissessem por ele o que queria. Olhou para o Aprendiz, e este, sem pensar, recolheu um tanto de água e lhe saciou a sede.
O Mago então deixou aparecer um leve sorriso e pediu que o jovem aproximasse o ouvido à sua boca. E entre outros sons, o aprendiz pôde ouvir uma palavra, bem fraquinha, mas clara, e ouviu também o último suspiro de seu mestre.
Então, correu ao antigo Livro, não triste pela perda de seu Mestre, mas repleto da sensação de sua sede saciada, e desenhou ao fim da página: cumplicidade!
Felipe Saleme
12/09/2000