
Todo mundo tem seu lado excêntrico, suas manias mais escondidas, daquelas que não se mostra ou conta. Servem só pra você, e pra mais ninguém. Quem não se pega, às vezes, andando de olhos fechados, tateando o ar no escuro, ou fantasiando personagens quando estão sozinhos, ou ainda, travando uma animada prosa com a própria imagem no espelho...
É bom se sentir vivo e capaz de criar seu mundo exclusivo. Viver suas emoções sem medidas, pudores ou régua. Há quem inventa suas loucuras e fantasias dando a elas vida própria e as guarda no fundo da gaveta, e há quem as faz viver e vive com elas.
Compartilhar esses momentos é prática para gigantes, poetas, ou loucos. Assim como há fantasias a serem criadas há também pessoas com quem se reparte esses momentos de loucura íntima. E não é o próprio criador quem escolhe a quem repartir. Uma vez que tomam vida, esses pequenos seres voam atrás de quem os veja, de quem os ouça e apenas....sorriem. Vão atrás de quem falam a sua língua, ou compreendam a sua linguagem.
Algumas vezes, uma das minhas loucuras escolhe certas pessoas e as chama pra brincar.Elas não querem nada em troca, ou cobram nada. Querem apenas achar quem se deite com elas no chão e fique ali, sem um motivo aparente, ou conseqüente. Apenas sorrindo gratuitamente de lembranças mornas ainda ou há muito, frias. Rindo de épocas passadas onde os rostos eram iluminados por velas e que não era preciso falar para se fazer entender.
E essa loucura descobriu algumas pessoas assim, por acaso. Talvez quando numa noite quente saiu para ver nuvens mais de perto. E ela me contou sobre elas. De quando se encontraram, contaram histórias e cantaram juntos. De quando riam de conversas que tiveram e que não ultrapassaram os limites do travesseiro e de quando ela ficou lá, quietinha, com os olhinhos grudados em seus sonos, e com a sensação de que, na verdade, nunca se separaram.
E ela não está triste por não estar aí junto dessas pessoas o tempo todo. Numa dessas noites de guarda, ao vê-las dormir, ela, traquina, desenhou na capela de seus olhos uma passagenzinha secreta para que elas possam, quando a saudade apertar, fechar os olhos e escapar, lembrando de cada pedacinho do que viveram juntos, de cada palavra e de cada silêncio na hora certa, de cada momento em que puderam perceber a deliciosa cumplicidade e também rabiscar ventos que as levem pra outros mundos onde se fala uma estranha língua.
E sabendo que ela não está triste eu também fico feliz com ela. E quando ela fica sozinha em seu cantinho preferido e se põe a relembrar, ela me chama e deita minha cabeça em seu colo....e me conta histórias até que eu durma... pra sonhar mais loucuras....
(...esse texto foi escrito para uma pessoa muito especial, com a qual vale a pena dar as mãos e sair por aí a brincar com as palavras...)

Um comentário:
Afinal, o que seria do mundo sem os loucos?! Se uma de nossas loucuras é querer ser feliz, penso ser ela muito mais sã que qualquer outra vontade, que qualquer outra intenção. E quando a noite chegar, minha loucura há de estar aqui, esperando por outra, para que possam dar as mãos e brincar como nunca ninguém brincou!
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